• Matinta Editorial

Matinta Entrevista #2: Fernanda Vivacqua

Atualizado: 9 de set. de 2021

Hoje, na nossa série de entrevistas com profissionais do texto, falo com Fernanda Vivacqua, que além de poeta - autora de dois livros - é revisora e preparadora textual.



Fernanda Vivacqua possui vasta experiência no trabalho com o texto. Sua jornada começa há exatos 10 anos, em 2011, quando ingressou em um projeto de extensão e pesquisa da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Juiz de Fora, chamado “Laboratório de Alfabetização”. Naquela época, trabalhava com alunos de terceiro e quarto ano do Ensino Fundamental, tendo como foco a escrita e a reescrita de textos. Foi nesse momento que Vivacqua quis trabalhar diretamente com sua língua materna.


Nestes últimos 10 anos, ela teve diversas experiências com o texto: foi estagiária no Curso Preparatório para Concursos, da Prefeitura de Juiz de Fora; professora do Jovem Aprendiz, programa profissionalizante de Juiz de Fora; bolsista de revisão da Editora da UFJF, onde conheceu o ofício da revisão e os processos editoriais; formou parte do corpo editorial da Edições Macondo, editora voltada à poesia contemporânea e com a qual contribuiu até o ano de 2018; e, atualmente, além de seu trabalho como revisora e preparadora textual, elaboradora de questões para simulados do ENEM e de diferentes vestibulares, é também uma das editoras do coletivo editorial de poesia Capiranhas do Parahybuna.


Conta que foi a partir da bolsa na Editora da UFJF que se sentiu confiante para trabalhar como revisora de textos. Mas o texto se insere em sua vida não somente pela revisão e preparação, mas também na escrita, que se apresentou à ela há cinco anos, quando escreveu e publicou “Maria Célia” (Ed. Macondo, 2016; 2018), seu primeiro livro de poemas. Depois, já em 2018, publicou a plaquete “Para os homens que não amam as mulheres” (Capiranhas do Parahybuna, 2018). Mas não é só na poesia que sua escrita se desenvolve. A profissional possui uma pesquisa de doutorado, centrada nas artes verbais que envolvem a toma da ayahuasca, o que dá seguimento às suas investigações em torno dos processos de criação poética e os usos de substâncias psicoativas.


(...) o trabalho com o texto não é algo que se dá de forma segmentada; pelo contrário, é integrado e se apresenta em diferentes frentes. (Fernanda Vivacqua)

Para Vivacqua, o trabalho com o texto acarreta dois desafios. O primeiro é definido por ela como "material" e tem a ver com a estabilidade das profissões ligadas ao texto - há uma certa insegurança no trabalho, muitas vezes feito de forma freelancer e com baixos salários. Além disso, não há políticas públicas para a produção escrita e para a leitura que deem certa estabilidade aos profissionais do texto. O que leva ao segundo desafio pontuado por ela, que é a dificuldade intrínseca ao próprio texto e ao trabalho com a língua e com a linguagem, pois "cada texto é um universo, com suas especificidades".


Segundo ela, compreender o que é este ofício é fundamental, pois somente assim o cliente pode entender como contar com esses profissionais, "em uma relação de respeito e ajuda mútua". O diálogo com o cliente, para Vivacqua, é fundamental: "No caso da revisão, por exemplo, quando o contato é por WhatsApp, peço para enviar um áudio, explicando todo o processo e propondo um calendário coletivo". Ela usa a metáfora da manutenção para explicar como o processo do trabalho com o texto é diferente de outras profissões, ou seja, "não é como deixar uma máquina na manutenção". É preciso conversar e acordar detalhes para que o trabalho seja feito com qualidade.


Eu sempre fui apaixonada pela nossa língua. Até hoje me pego em estado de encantamento, ao descobrir ou perceber algum jogo que a língua materna nos convida a participar. Acho que esse é o motivo que me fez trabalhar com o texto, mas só o tempo, e o próprio contato com a área, provocou essa reflexão. Por muito tempo, achei que era o ensino que havia me levado a ser uma profissional de Letras. Hoje, entendo que o ensino é algo que me constitui, mas a pulsão vital, que está na educação formal, mas não só, é a língua – com seus movimentos, deslizes e possibilidades de contato. (Fernanda Vivacqua)

Vivacqua é fã do papel e diz que, mesmo trabalhando com arquivos digitais, não abandona o caderninho. Essa prática se converteu em método de trabalho ou, como ela mesma define, sua mania. É nele que a profissional faz anotações sobre pesquisas a serem feitas e pontos a serem retomados no trabalho. Ao contrário do que pode parecer, ela aponta que essa metodologia torna o trabalho mais prático, evitando abrir novas abas e arquivos no computador. Conforme faz apontamentos em seu caderno, esse material se torna um objeto de estudo e consulta, evitando o trabalho redobrado.


Quando perguntada sobre o que falaria a si mesma se pudesse voltar ao passado, para quando começou a trabalhar com o texto, Vivacqua disse que diria muitas coisas, e, também, se abraçaria "porque nem sempre é fácil ser uma trabalhadora do texto", mas, principalmente, diria três coisas: 1) que ela não precisava se comparar a outros leitores (ou escritores); 2) que deveria se preocupar com a sua profissionalização; e 3) que tivesse calma consigo. Para a profissional, as trajetórias são próprias e pessoais, por isso, o importante é dialogar e aprender com quem puder, mas sem projeções e expectativas irreais e, principalmente, que não são suas.


(...) carreira não se constrói de um dia para o outro, e sempre haverá experiências novas e ricas para viver. (Fernanda Vivacqua)

Para Vivacqua, o principal erro de quem trabalha com o texto é a falta ou equívocos na comunicação. Ela diz receber mensagens de clientes insatisfeitos com outros profissionais que dão informações vagas ou desencontradas. Além disso, há o equívoco da falta de pesquisa ao longo do trabalho, como profissionais que não acompanham mudanças em regras e convenções que mudam ao longo do tempo.


Embora o trabalho com o texto pareça solitário e distante do mundo - com profissionais que normalmente trabalham na solidão de seus escritórios, na frente de seus computadores -, Vivacqua ressalta que o profissional do texto é estratégico no desenvolvimento social. Segundo ela, esses profissionais trabalham em uma grande rede de escrita e leitura, desenvolvendo a formação de leitores e a circulação de textos. A revisão de teses e dissertações, por exemplo, contribui, para Vivacqua, com a excelência da ciência.


Dessa forma, ao final da entrevista, a profissional salienta a importância de políticas públicas relacionadas ao texto. E o profissional do texto deveria ser valorizado justamente porque é parte estratégica da construção de boas políticas públicas: "somos peça importante, e estratégica, se queremos ser uma sociedade que valoriza aquilo que já fazemos, todos nós, e seguiremos fazendo – ler e escrever". O que desdobraria no respeito ao profissional do texto. Assim, do ponto de vista coletivo, deveríamos assumir o desafio de encampar os debates sobre a necessidade de incentivos às políticas públicas de leitura e escrita.




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